quinta-feira, 20 de julho de 2017

Dia 15 | Quinta-feira

Todos satisfeitos na carpintaria das Irmãs, fomos ao secador ver os briquetes que produzimos ontem.

O primeiro em que toco, parte-se.

Que desmotivação. Continuar a fazer briquetes sem consistência? Qual o objectivo do nosso trabalho, afinal?

O que estaremos a fazer de errado para os briquetes não saírem consistentes?
O plano agora era ir falar com o Assunção, para ver de que forma o poderíamos ajudar no seu projecto, e eventualmente, fazermos alguma coisa que valesse a pena. Mas o Assunção não atendeu nem estava no Kitembú. Deixámos o nosso contacto e ainda hoje (22-08), estou à espera que nos ligue de volta.

Fomos à sede da Alisei, na Câmara de Lembá. Expusemos todas as nossas preocupações, ao Cândido e ao Arlindo. Os briquetes não estão a funcionar. O que fazer? Mas o ano passado como é que funcionaram? Ao que parece, foi uma ex-colega deles, a Elvira, que acompanhou o projecto. A sério, e só agora é que se lembraram de nos dizer? E podemos marcar reunião com ela?
“Amanhã ligo para ela, para ver se tem disponibilidade para a semana.”
“E não pode ligar agora?? Assim vemos a disponibilidade de todos, até pode ligar do meu número, pois tivemos apoio da CST.”

A proactividade tende para zero por aqui. Leve-leve.

Ligaram de facto do nosso telemóvel, a Elvira não atendeu.

Preparámos tudo para a Banca dos Briquetes – Sessão II. Da Alisei, apareceu o Arlindo. Também um colega da Tese estava presente e o Sr. Izequiel da Câmara, a rapariga da bicicleta da praia e outras pessoas. Não tivemos tanta gente como ontem, já não era novidade. Ainda assim, conseguimos chegar a novas pessoas.
No meio da confusão, tive de vir para casa, pois estava a sentir-me mal disposta. O que me valeu é que estava a 1 minuto a pé de casa. Dedos para dentro da boca, vomitar.


Terá sido do almoço? Apenas comi como se não houvesse amanhã, a fruta-pão assada com peixe e muito molho de tomate. Estava tão delicioso, não percebo.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Dia 14 | Fazendo fãs

Hoje na Carpintaria das Irmãs, enquanto produzíamos briquetes para testar diferentes madeiras e misturas de serraduras, acho que fiz um amigo, o Nivaldo. Perguntou o meu nome, se eu tinha filhos e a minha idade, por esta ordem. É esta a prioridade dos esclarecimentos. O puto é super querido. Ainda foi buscar uma cadeira para eu me sentar enquanto o Martim fazia os briquetes, e ainda nos trouxe um pedaço de fruta-pão assada.
Lembrei-me do polícia que ontem veio falar comigo na bomba de gasolina, o Fernando. Achou piada ao meu nome, por ser o mesmo do da mãe dele, Maria Inês. Mostrou-me o Bilhete de Identidade para eu comprovar o nome da mãe.
Tal não foi possível.
A fotografia dele aparecia em frente ao nome da mãe. LOL Aqui em STP, parece que os BI's não são assim tão bem plastificados. Tinha 48 anos e perguntava-me o que era necessário para casar com uma estrangeira. “ Bem, se calhar o melhor era não falares com esse bafo a álcool às 3h da tarde”, pensei eu. E era polícia, fardado.

Produzimos 3 diferentes tipos de briquetes:
- Pau vermelho
- Pau vermelho + Amoreira
- Pau vermelho + Amoreira + Cidrella (serradura grossa)

Almoço de peixe, com frutas de sobremesa e ainda fui comprar dois bolinhos de côco. E mais um à tarde. Voltou-se a falar do projecto de Sábado porque muitos ficaram descontentes. Nova conclusão: o Sábado é livre, as pessoas precisam de tempo para si próprias.

Preparámos a primeira Banca dos Briquetes e lá fomos nós para o Cruzamento do Sr. Virgílio, aqui no nosso bairro. A 3 casas da nossa. É uma zona de forte movimento de bancas, motoqueiros, moscas, cães com feridas, tudo.
Rapidamente, fomos engolidos pelas crianças. Todas queriam mexer na serradura, todas queriam fazer briquetes. Levámos a prensa de madeira do Bô’16, foi muito giro! Animou-me.
Aliás, já estava animada de manhã, se calhar foi por isso que tudo correu bem: produção de briquetes de manhã e sensibilização à tarde.

Às 17h fomos a uma reunião na Cruz Vermelha, aqui em Neves. Foi assim que ficou definido o projecto de Sábado da casa WACT. A sério, já não conseguia ouvir mais nada sobre o projecto de Sábado. Que exagero de conversas e mais conversas sem qualquer objectividade. Próximo Sábado: limpar Santa Catarina. Sábado seguinte: caminhada aos túneis e cascatas. Parece-me lindamente.
Éramos 11 pessoas da WACT e umas outras 11 da Cruz Vermelha, e a apresentação de todos consistiu numa festarola, em que todos batiam palmas e cantávamos:

(todos sentados) Havaiana… Havaiana uéé.. Havaiana… Saia de boneca…
(cada um vai na sua vez desfilar ao centro) Eu sou a Inês… Tenho 27 anos… E quem não me conhece…
(todos sentados) Fica a conhecer agora…
Havaiana.... Havaiana uéé... Havaianaaaa...
…Mais palmas…Sempre palmas…

Tanta festarola ao início, a conversa posterior fez-nos quase adormecer.

Ao jantar, todos se queixaram do sabor do esparguete. Ao que parece, o Martim colocou um briquete no fogareiro pois o carvão estava a terminar. E parece que alterou todo o sabor. Incrível. Se calhar, nos outros projectos com briquetes eles são utilizados para aquecimento, e não na cozinha.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Dia 13 | Terça-feira

Hoje não fiz um rabo. Estou desmotivada com o projecto e tudo corre mal.

Hoje foi dia de preparar o pequeno-almoço na casa WACT, tive de ir logo cedo comprar o pão à rua. O pão compra-se numa banca que fica literalmente a 2 minutos a pé. É também daquelas bancas que fica a levar com os tubos de escape, mas nesta, o pão está guardado em sacas. O que não quer dizer que seja mais higiénico, uma vez que o vendedor tira os pães com as mãos e coloca-os no nosso saco de pano.
Com um sono dos diabos, às 6h45, sem vontade de falar com ninguém na rua. Mas em STP isso não é possível, há sempre bons dias e olás para responder.

Era suposto ir à Carpintaria, mas resolvi ir ao Kitembú para mandar um email a Portugal. Electricidade em baixo, não havia Internet. Fui escrevendo o email para depois enviar rapidamente, mas a Internet não veio. A electricidade só voltou à cidade às 16h30. Foram umas 8h em que toda a cidade de Neves esteve sem electricidade. Mas por aqui não afecta muito, à partida. Todas as vendedoras de rua estão a trabalhar à mesma, todas as peixeiras (palaiês) a comprar o peixe junto ao mar à mesma, todos os moto-taxistas continuam pela estrada à mesma. Fica quase tudo igual, sem electricidade.
Por falar em taxistas, hoje fui abordada por um tipo de 28 anos que “queria saber mais sobre mim”. Para além de lhe dizer que tinha namorado, expliquei que andava de bicicleta, mas não creio que alguma mensagem tenha sido passada nesta breve conversa.
Fui dar um passeio à praia para descomprimir. Foi bom. Uma palaiê pergunta-me se estou bem “prima”. Esta é original, no mínimo. Não foi “olá”, nem “oh brranca”. Gostei dela. Fiquei a ver a outra palaiê a regatear o preço do peixe. Continuava a insistir que era para alimentar a família e não para vender, e por isso queria mais peixes pelo valor que lhe tinha dado. No final, lá o pescador acabou por ceder. A “prima” pediu-lhe os peixes que tinham falta de pedaços, ou já estavam trincados, depois entregou-os a uma das suas filhas para ir fazer o almoço.Acho que foi peixe de borla.
Continuei o passeio. Ia à Câmara perguntar se a luz já tinha vindo, e dei de caras com o Assunção. Tive de lhe dizer que tinha um especial interesse pessoal pelo projecto dele. Aproveitou que eu lhe disse ser bióloga, e logo me falou num outro projecto dele com a Câmara sobre…
Tcham Tcham Tcham Tcham…
Palaiês. O meio com o qual eu tinha contactado 10 minutos antes. Incrível o Universo.
Queria ajuda para fazer um orçamento de arcas frigoríficas para as palaiês. Isto é que é o verdadeiro trabalho de Bióloga, caso não saibam. Fiquei de ir ter com ele à tarde.

O almoço foi peixe grelhado, com fruta-pão assada e salada. E manga para sobremesa. Ainda não tinha provado as mangas de cá, são bem pequeninas, em comparação com as importadas do Perú para Portugal.

Saí para fazer inquéritos do Bô Energia. Apenas fiz uns 5, mas as respostas são todas as mesmas. À excepção dos preços e da durabilidade do produto que as mulheres utilizam para cozinhar. É tão complicado perceber a linguagem delas. Como fazer um estudo de mercado sem perceber o sistema?

Experiência nº3: assar banana, apenas num fogareiro, apenas com briquetes. A banana mal assou. É tão frustrante. E amanhã iríamos fazer uma acção de sensibilização. Para quê?

À noite, reunião para decidir o projecto de cada, dos próximos Sábados. Não aceitaram a minha ideia de ir sozinha ajudar o projecto do Assunção, pois tem de ser um projecto de grupo, da “família WACT”. Que seca, lá terei de ir pintar paredes com eles.

São agora 22h52 e está música na rua, com os decibéis bem levantados. Deve ser porque não ouviram música durante o dia, pois não havia luz.
Quase me esquecia, provei um fruto novo hoje na casa da Xinha, o untué. A sua seiva/leite colou-me os lábios, as mãos, tudo. Era tão amargo, apenas doce junto do caroço. E elas comiam-no na boa, pois já têm prática e não ficaram coladas. Riam de mim. É como quando a Xinha prova as nossas comidas, ficam todos a olhar para ver a reacção.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Dia 12 | Mais sentimentos, não.

Mais um dia começado com um belo mata-bicho (=pequeno-almoço): pão recheado com um abacate. Café com chocolate a acompanhar. E fiquei com fome à mesma. Outra vez. O meu corpo deve estar a precisar de mais nutrientes. Possivelmente será do calor, ainda devo estar a habituar-me ao clima.

Ainda não tínhamos traçado o plano semanal para o Bô Energia, mas o nosso objectivo para a manhã era ir recolher alguns briquetes à Carpintaria das Irmãs, para testá-los, ver a consistência, ver se funcionava e acreditar no projecto, ou não. E assim foi, apenas saímos de casa um pouco e rapidamente estávamos de volta. Hoje fomos por um caminho diferente, para começar a conhecer melhor o bairro.
Os briquetes não se partiram! Milagre. Bem, pelo menos alguns deles. Ficámos contentes à partida, pois pelo que a Alisei nos tinha referido, aquela consistência não funcionava e tinha de ser melhorada.
No caminho de regresso, uma mulher a vender um peixe na rua, no chão, por cima de um lençol. O peixe Andala (peixe-espada), tinha cerca de 1 metro. Que porra não podermos tirar fotografias em Neves, gostava de ter fotografado o peixe gigante à venda no chão.
Em casa, parámos para descansar e o Martim foi ajudar outro grupo. Devo ter demorado 1h a ir às compras:
- Saldo para o cartão CST: 20.000 dbs (com 50.000dbs de oferta) para fazer as chamadas por aqui
- 1 caixa de fósforos: 1.000dbs
- 1 molho de carvão. Porra. Comprar produtos em STP para fazer um estudo de mercado é pior que ir à missa. Apenas queria saber quanto era o molho de carvão e para quanto tempo durava um molho. Eu tinha duas moedas de 2.000dbs cada. O molho de carvão era 3.000dbs. O meu troco, em vez de dinheiro, foi mais alguns pedaços de carvão. Conclusões: zero.
- 1L de petróleo. Já me tinham dito que era na bomba de gasolina, no entanto perguntei ao Sr. Armindo (o senhorio da casa) onde podia comprar, na expectativa de ser uma compra facilitada. Ofereceu logo a ajuda do seu filho para ir ele comprar. Ponderei em ir também, mas ele estava de mota, e nós não podemos andar de mota – regras do nosso voluntariado. E a bomba de gasolina é tão perto, uns 8 minutos a pé… Impressionante como têm de se deslocar de veículo para todo o lado.
Aproveitei e comprei também dois bolinhos de côco, mas desta vez ao rapaz que tem a banca na rua, perto da banca da senhora do costume. O rapaz fica lá todos os dias sozinho, a espantar as moscas dos bolinhos. Dá uma certa pena.
Em casa, peguei no Plano de Negócios para os briquetes, aproveitando o documento-tipo das aulas de Marketing do Mestrado. Ainda bem que trouxe o computador com todos os meus documentos!

Experiência nº1: acender os briquetes no fogareiro típico de São Tomé; uma lata/chapa de alumínio, com abertura na base. Queríamos observar o fumo que deixavam estes briquetes, feitos de serradura recente, pois a Xinha já tinha experimentado com a serradura antiga e a cozinha ficou irrespirável. Deitou fumo, confere. Só parou após as labaredas se apagarem, o que ainda demorou alguns minutos.

O nosso almoço parecia um banquete: peixe em molho de tomate, fruta-pão assada, banana cozida e salada de alface e tomate. Não comi a fubá com arroz pois estou com a barriga toda inchada e preciso que volte à normalidade (na medida do possível).

Seguimos para a reunião com a Alisei, aqui no escritório que têm na Câmara de Lembá, para a Rita apresentar os restantes projectos. Minha nossa, foi uma autêntica seca ouvir o Cândido falar de tudo o que eu já tinha ouvido na reunião de 6ªfeira. Naquele tom monocórdico e tremendamente pausado, em modo leve-leve. Quase todos adormeceram, inclusivamente o seu colega Arlindo, que estava ao lado dele.

Depois de planearmos a nossa semana de trabalho, fomos à Rádio deixar um texto para que divulgassem a nossa actividade da próxima 5ªfeira. Esperemos que tenha adesão. Esperemos que os briquetes funcionem. Depois de levarmos a Márcia (rapariga que trabalha na rádio) até quase a casa dela, onde nos apresentou o Restaurante Santola, recolhemos duas caixas de cartão e foi assim que os primeiros cartazes para a banca foram feitos.
Dia de trabalho terminado? Parecia.

Experiência nº 2: Um fogareiro com carvão e um fogareiro com briquetes. Qual deixa a labareda mais rápido? Carvão. Qual deixa primeiro a água a ferver? Passado meia hora sem água a ferver, desistimos de ver a água a borbulhar e juntámos o arroz. Qual o arroz que ficou pronto primeiro? O dos briquetes. Conclusão? Nenhuma. A panela que estava nos briquetes fechava bem, a do carvão não vedava, por isso o calor deve ter-se dissipado. E todas estas brilhantes conclusões em apenas… 1h50min. Uma hora e cinquenta minutos a fazer arroz para 11 pessoas!
E o melhor estava para vir: ninguém comeu o arroz, pois disseram que tinha um sabor estranho, a plástico. O fumo dos briquetes deve ter entrado na panela.
Parece que damos um passo em sempre, mas vamos sempre dois para trás. Viva o Bô Energia!

O que valeu é que também havia sopa para o jantar, salsichas com ovos e mamão. Hoje foi dia de lavar a loiça com o Sebastião e dia de dinâmica de grupo. Que bela seca ter de estar sentada num sofá a ouvir falar de sentimentos, por mais de 1h, vão-se lixar.

domingo, 16 de julho de 2017

Dia 11 | Casa assaltada

Cá na casa WACT, está tudo traumatizado com o assalto de ontem. O que aconteceu? Chegámos a casa depois do passeio e primeiro, deu-se pela falta de uma coluna de som, que tinha ficado no pátio. Possivelmente alguém saltou cá para dentro e levou-a. Todo um drama.
Fomos jantar e a conversa da coluna já tinha sido ultrapassada. No final do jantar, quase todos já levantados da mesa, alguém diz “Está um homem no nosso quarto”.
Olha, brincadeiras deles, que giro.
Mas depois voltou a dizer, e o grito foi maior.
Enfim, foi toda uma cena de foge daí, chama os rapazes, os rapazes estavam a fazer cenas, ninguém foi ao quarto, até que quando fomos, já não estava ninguém. Mas a janela estava aberta. Uma janela que ainda não tínhamos reparado que existia, e com tanto tempo a gritar e fugir e decidir o que fazer, o tipo teve tempo de se pôr na alheta. Levou uma mochila com um estetoscópio, um telemóvel, uma mala cheia de medicamentos… E uma máquina fotográfica ficou no chão do quarto, por sorte. Não deve ter tido tempo para a transportar consigo. Ou com a pressa da fuga e na escuridão do quarto, ficou para trás.
O impressionante é que isto aconteceu com todos cá em casa, a jantar no pátio. O tipo teve tempo de entrar pela porta da frente, subiu as escadas da frente, entrou dentro de casa, procurou o que queria, e algures as pessoas começaram a subir para o piso de cima, dos quartos, e ele estava escondido no nosso quarto, até alguém o apanhar a mexer nas calças ao que afirmou:
“Vou já sair, vou já sair.”

Polícia cá em casa, choros, dramas, terapia de grupo, mudanças de camas por medo de ficar no quarto em que o homem esteve, casa trancada para sempre. Colocação de arame farpado nos muros do pátio agendada para a próxima semana.

“Foi o motorista da hiace, que fez aquela condução perigosa, ontem ao voltarmos da cidade.”
“O que estamos a fazer em São Tomé, eles não nos querem aqui. São racistas.”


Posto isto e passadas umas horas de muita conversa sobre o mesmo, tarde de praia no Mucumbli e jantar lá também: um polvo inteiro só para mim, com uma Rosema. Se calhar não dá para entender, mas estas palavras valem outro. Quando o almoço é arroz de polvo na casa WACT, a quantidade de polvo que como deve ser 1 ou 2 tentáculos.
 E um ouriço-do-mar que apanhei na praia.

sábado, 15 de julho de 2017

Dia 10 | Passeio com o Alemão

Hoje o Sábado, afinal foi Domingo. Foi o dia de passeio, dia livre e sem trabalho. Foi trocado, devido à disponibilidade do guia.
Apanhámos hiace até à cidade, e lá fomos em dois jipes fazer o percurso na zona Centro, para o distrito de Me Zochi, que significa “Manuel Jorge”, o seu antigo dono(?). Fomos acompanhados do nosso fantástico guia turístico, o Alemão. Spoiler alert: Alemão é só o nome do guia.

Começámos por visitar a cidade da Trindade, onde, já agora, vive o presidente da República. E também o Alemão.
Fiquei a saber que São Tomé e Príncipe tem 7 variedades de banana e 4 variedades de cacau, o vermelho ainda está verde e o amarelo está maduro. É algo confuso, para um cacau. E uma degustação destas coisas todas é que era. Mas o passeio não incluía.
O Alemão explicou-nos que as palmeiras podem substituir o algodão (upa), servem para fazer vassouras, para fazer vinho de palma, para extrair o óleo de palma do seu andi e ainda, extrair óleo de coconut da sua semente. Sabe muitas coisas, e a sabedoria vem da sua avó, que tratava tudo com os produtos que a terra lhe dava.
Visitámos a Roça Bombaim, onde actualmente habitam cerca de 15 pessoas e 20 crianças, um meio extremamente pequeno. Nos edifícios brancos, era onde viviam os escravos, o edifício rosa onde viviam os senhores. Esta foi a primeira roça em que os animais estavam bem tratados, e foi onde me derreti com os gatinhos.
As cascatas Bombaim, com uns 20m de queda de água, fizeram lembrar as cascatas da ilha da Madeira. Não tomei banho. Estava muito frio, e eu nem sequer tinha levado casaco pois ainda não tinha sido necessário até então. Em STP anda-se bem de t-shirt, de dia e de noite. Mas aqui no centro da ilha, o clima é diferente, mais nuvens e menor calor.


Passámos por Nova Moca, para chegar ao Jardim Botânico, localizado no Bom Sucesso, a cerca de 1150m de altitude. O projecto Jardim Botânico foi financiado pelo projecto Ecofac, em 1997, actualmente são poucos os trabalhadores que permanecem. A nossa visita guiada foi feita pelo Sr. Leonel, que nos disse o que sabia sobre as suas plantas.
Visitámos ainda a Cascata de São Nicolau, mas estava seca. Em STP, estamos na altura da gravana, seco e frio. Depois virão as chuvas e o calor. Se agora é frio e durmo nua, nem quero imaginar na época do calor.
Na Roça Monte Café, para além de vermos estufa de secagem do café, pudemos provar in loco um café biológico. Bolas, que rico café.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Dia 9 | Dia de reuniões

Sentimentos mistos. O que pensar? Para onde virar?
Hoje foi dia de ir para a cidade. Quando se fala em cidade, é São Tomé. Eu e o Martim andámos para caraças a fazer o reconhecimento dos locais das reuniões, sempre perdidos pois os São-tomenses em vez de dizerem que não sabiam ou não tinham percebido, lá indicavam um caminho. O que não significava que íamos ter onde queríamos.
Experimentámos a wi-fi da Pastelaria Central, um café português, onde para além de comer um croissant com manteiga, bebi um café real. O pacote de açúcar é igual aos de Portugal, por isso não o trouxe para a mãe.
Ok, mãe?? Não há pacotes!!

3 reuniões num dia, sem bosses a comandar. Inês & Martim kickasses

10h – Reunião com a CST
Apresentação geral dos projectos à empresa de telecomunicações, para tentar patrocínios. A única coisa que conseguimos foi que nos dessem cartões moche, uau. O Martim disse para ser eu a apresentar o Bô Energia. Todos sentados à volta de uma mesa redonda, com dois São-tomenses a ouvir-nos, comecei a beber água. Lembrei-me do que me disseram depois da apresentação medonha que tive no Seminário das Eco-Escolas este ano.
“Bebe água para a boca não secar e o cérebro continuar a funcionar.” Durante as sessões do curso Spirit da WACT (Janeiro-Junho, para fazer este projecto) não funcionou. Hoje, talvez tenha resultado. Fiz o resumo do nosso projecto e a voz não tremeu muito. Fantástico, uma pequena vitória.

11h – Reunião na Alisei
Supostamente, seria esta a Associação que iria apoiar o Bô Energia, leia-se, financiar o projecto. Mas têm um director novo. Ao que parece, os briquetes não têm qualidade para eles. Querem testes com madeiras/serraduras de espécies de árvores diferentes, com tempos de secagem diferentes, e tempos de utilização diferentes.
Mas está tudo louco?
No outro dia, na carpintaria 5, o carpinteiro nem nos sabia dizer de que árvores eram aquelas madeiras. Se não podemos contar com a sabedoria deles, vamos contar com a nossa, que não somos de cá e não conhecemos a flora?
Ah, mas a Alisei tem verba disponível para aplicar no projecto dos briquetes. Briquetes estão incluídos no Plano de Desenvolvimento Distrital. Tencionam aplicar o dinheiro na produção de uma prensa industrial, depois dos testes às madeiras e, mais ridículo ainda, medições de humidade e pesos.
Saímos tão desmoralizados desta reunião, que nenhum abria a boca para falar.

Almoçámos na cidade, num restaurante português, o Xico’s, pois todos queriam carne. Comi um bitoque com uma Rosema, mas o melhor da refeição foi mesmo a sobremesa, um gelado de maracujá, onde se sentiam as grainhas, e uma cobertura de chocolate quente e espesso, que era qualquer coisa!



15h – Reunião na TESE
Associação que gere os resíduos da ilha. Perguntaram-nos logo o que queríamos deles. Neste ponto, nem nós sabíamos. Houve também abertura para um pequeno financiamento, após a longa lista de problemas e dificuldades que a directora identificou ao Bô Energia. Ao que parece, já houve várias tentativas destes projectos. Creio bem que a nossa é melhor, mas também, sem contactos nem acesso à Internet, não é fácil o termo de comparação.

Todos nos disseram que os briquetes têm pior funcionamento que o carvão. Mas que raio, quando os nossos colegas do ano passado nos disseram o contrário. Quem não está a perceber?

Para terminar o dia na cidade, fomos ao terceiro spot português, o supermercado CKdo. Pela casa WACT, todos andam com desejo de bolachas. A nossa alimentação inclui pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar, nos quais pequeno-almoço e lanche é à base de pão, ponto final. No Ckdo, há a marca Pingo Doce, é um daqueles supermercados-mete-nojo sem produtos locais. O meu objectivo era comprar cera depilatória, mas perdi-me nas frutas. Outra vez. Esqueci-me da cera. O CKdo é um mete-tanto-nojo que é deslocado do centro da cidade uns 15-20 minutos a pé, e por isso disponibiliza transporte gratuito para o centro, para quem fizer compras.
Foi o único local onde eu reparei que havia sinalização de trânsito, no parque de estacionamento exterior. No centro, apanhámos a hiace para regressar a Neves (outros 40minutos de viagem). Éramos apenas 10 pessoas dentro da carrinha, tudo dentro dos conformes. A meio do caminho e das bananeiras apanhámos UMA OPERAÇÃO STOP.
Wait… What?
Afinal é obrigatório ter carta de condução para conduzir, o selo das finanças tem de estar pago e as luzes têm de estar a funcionar. Minha nossa, tantas regras! Nem chegou a 1 km mais à frente, o motorista deixa entrar mais três tipos, que foram o resto do caminho no porta-bagagens.

Jantar atum com grão e legumes salteados, seguida de uma dinâmica de grupo da Pinja: desenhar o nosso futuro. Fiz a minha horta pedagógica.

Apenas algumas fotografias da cidade. Tenho de me dedicar mais às fotografias.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Dia 8 | Respeitar a cultura, mas como?

Aqui em São Tomé e Príncipe, todas as vias públicas são mistas, andam à solta galinhas, porcos, cabras, ovelhas, cães, crianças. Todos pelas ruas, juntos ou separados, a comer lixo e afins. Os cães são, de todos, os que têm mais mal aspecto. Ninguém cuida dos cães, estão magros, vê-se contorno das costelas de quase todos, estão cheios de feridas na cabeça, orelhas e patas, alguns andam a coxear,..   É mesmo frustrante ter de olhar, ver que estão a sofrer, e não poder fazer nada em relação a isso.
Como respeitar uma cultura de desrespeito pelos animais? Na minha opinião, as pessoas têm opção de escolha, ao contrário dos outros animais domesticados. Ou também as pessoas não terão opção de escolher outra vida?
A Rita diz que os animais são tratados desta forma, pois as pessoas estão a tentar sobreviver.
NÃO COMPREENDO, DE TODO.

Não compreendo como é que sobreviver passa por atirar pedras aos cães, deixá-los a latir, e rir por isso. Foi o que eu assisti hoje. Nem como é que sobreviver, passa por atar cordas aos animais, para fazer uma brincadeira que é… Puxá-los. Vi uns putos a tentar fazer isso a um cão, mas o cão conseguiu fugir. Minutos depois, um cão a latir, tão profundamente que parecia que estava a falecer. Outros cães vieram ladrar para junto dele, logo atrás de um muro. Ainda bem que havia um muro para eu não ver o que tinha acontecido. A meio de um inquérito do Bô Energia, a meio de uma conversa com uma mulher, congelei a olhar no vazio com toda aquela confusão.
Já era a segunda vez que congelava neste dia.
Desliguei o cérebro para não odiar aqueles rapazes que pouco têm nesta vida. Desliguei porque eles são mesmo estúpidos, é isso e não há outra forma de dizer.
Não admira que quando eu me agacho para tentar fazer festinhas a um cão, todos, mas todos fogem. Isso é que é a sobrevivência, fugir do potencial perigo.


De manhã, fomos produzir briquetes para a Carpintaria das Irmãs, com a ajuda do Wladimiro (Apau) e do Daniel (Dani). Em 4 horas, fizemos 170 briquetes. O Diogo, o responsável pela carpintaria, inventou uma forma de soldar metal para melhorar a prensa, para os prensadores não caírem para além dos moldes, pois para voltar a encaixá-los nos moldes era uma trabalheira dos diabos. Quando eu lhe disse que podíamos arranjar separadores de serradura para duplicar a produção, arranjou 4 discos de plástico. O Diogo deve ser um pequeno génio, ou pelo menos, um grande engenhocas. Por isso é que será o responsável, há tantos carpinteiros naquela carpintaria…
Apenas fiquei a misturar a serradura com água e a levar os briquetes para o secador exterior, ainda assim esta manhã deixou-me estafada. Bebi toda a água do meu cantil , o que nunca acontece, e o almoço às 12h30 nunca soube tão bem. Foi peixe com legumes cozidos e um ovo. Molho de salsa à moda da Xinha. O que são os legumes? Duas tiras de feijão-verde, 1 tira de meia cenoura, meia mata-bala, meia batata.
Começo a ficar com o hábito de comer bolinho de côco todos os dias. Aquele “dóxi” está à venda nas bandas de rua, ao ar e ao pó, onde centímetros à frente passam as motas a libertar os seus fumos pretos pelo tubos de escape. Mas aquela porra é viciante, tem mesmo pedaços de côco envolvidos na farinha, e fico sempre com vontade de comer o segundo. E compro.
1 biscoito = 1 conto = 1.000 dobras (1 moeda) = 4 cêntimos

Na reunião na Câmara Distrital de Lembá, com o presidente André, foi o Martim que apresentou o nosso projecto, claro. O presidente ouviu os 4 grupos a apresentar os seus projectos, e no final perguntou-nos se não íamos fazer nada sobre reciclagem.
A SÉRIO? O meu assunto ambiental de eleição, assim? E eu muda, sem nada para dizer, sem opinião. Não percebo como poderei ajudar neste local, não percebo como funciona o sistema. Um sistema de lixo por todo o lado. E precisam de ajuda.

Andei quase 2 horas sozinha por Bengá, a pseudo-fazer inquéritos às mulheres e a ouvir falar sobre os seus costumes de cozinha e de vida. Gosto bastante de ir sozinha e fazer o trabalho ao meu ritmo. Novamente, 100% das mulheres demonstraram interesse nos briquetes (o meu universo foram 3 mulheres). A primeira, é a Maria Tomé que vende os bolinhos de côco. Quando lhe perguntei o que era necessário para ter uma banca de rua (autorizações à Câmara, ponderei eu), apontou para um homem:
“Pergunta a ele, trabalha na Câmara.”
Coincidência, era o assessor do presidente, com quem tínhamos estado esta tarde.
Para ter uma banca de rua, de sensibilização, como o âmbito era social, não tinha de pagar nada. Só por isso.
Duvido que seja por isso. E os projectos não sociais, pagam o quê? Cascas de banana no chão? Não têm forma de controlar quem vende o quê e onde, é isso.
Perguntei-lhe se o presidente ainda estava na Câmara, pois gostava de falar com ele, aconselhou-me a ficar junto ao carro dele, para o apanhar à saída. Mas na Câmara já estavam todas as janelas fechadas, assumi que já não ia acontecer.
Estava eu a meio de um inquérito, a falar com uma senhora simpática que sabia que eu tinha ido à procura do André, e quando ele sai da Câmara, aponta para ele e lá vou eu a correr.
“Sr. Presidente, Sr. Presidente!”
Podemos dizer que foi uma espera. E consegui o contacto que queria. Graças a ele, reunião marcada para o dia seguinte, com a entidade gestora de resíduos. Afinal os connects funcionam. Ele foi super atencioso, não faz um trabalho melhor, pois o governo não o permite.
Nisto tudo, falei com um tipo, o Lázaro, que trabalha na Câmara, no departamento de Salubridade. Pela conversa dele, até é um homem com uma mentalidade ambiental, que se preocupa com a integridade das ruas. Diz que as ruas agora estão muito melhores.

FODA-SE, ESTAS RUAS TÊM MERDA POR TODO O LADO.
ISTO É QUE É O ESTADO “MELHOR”?

Pelos vistos, tem sido um árduo trabalho de sensibilização das pessoas. Foram colocados caixotes do lixo nas ruas, mas o que acontecia muitas vezes é que as pessoas vandalizavam os contentores. Ficou ele próprio, muitas vezes, a fazer a vigia dos contentores. E quando alguém os destruía, fazia queixa na polícia e as pessoas ficavam presas 3 ou 5 dias. Agora, já não há tanto vandalismo, só pontualmente, e mais os homens bêbados.
Foi uma sensibilização ambiental feita pela negativa, portanto, e até tem resultado. Fixe.
No caminho de regresso para casa, uma miúda passa por mim de bike. Claro que quis falar com ela. Tinha uma bike vermelha, faz lembrar a da Maria, mas esta é a Cátia e a bike emprestada. Tem 20 anos e quer ser advogada. O pai foi para Angola e criou lá família, não quer saber dela; a mãe abandonou-a à nascença, então vive com a madrasta, a qual me levou a conhecer. Namora com um tipo que trabalha na Carpintaria das Irmãs, no entanto é virgem pois “tem medo”. Que miúda porreira, tanta energia para dar ao mundo e está presa aqui, possivelmente para sempre.

Ao jantar, tivemos novamente convidados: o senhorio da casa, os seus dois filhos e as esposas. Que seca. Mas o arroz de polvo com vinho branco português ajudou a passar as horas. Vesti o meu vestido vermelho, pois era suposto ser um jantar especial, afinal eles vinham de t-shirts e gangas. É uma família de professores, simples.
Aqui em STP, não é preciso ter um grande curso para se ser professor, basta andar no ensino secundário. É a falta de recursos humanos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Dia 7 | Avante! Com o projecto.

Desistimos da ideia de ir ver a produção de carvão a Ribeira Palma. Ligámos para o número de telemóvel do rapaz e não atendeu. Não vá ele ter-se esquecido e fazermos uma caminhada de 1h em vão, às 7h da manhã… Depois do dia ontem de reuniões falhadas… Esquece.
Fomos às carpintarias locais, com a prensa de madeira que o Bô Energia’16 deixou cá em casa. É uma prensa simples, que funciona apenas com a energia manual. Foi tão fixe! Começámos na do Sr. Eugénio, e todos ficaram a ver-nos a produzir o primeiro briquete. Homens, mulheres, crianças. A Rita, a nossa coordenadora, e a Pinja, estagiária finlandesa, foram connosco. O Sr. Eugénio apenas esperava pela nossa visita na 5ªfeira e acho que até ficou contente por termos aparecido mais cedo do que o combinado. O segundo briquete já foi ele a fazer. Será que os dois briquetes que lá ficaram vão ser usados?
Partimos para a Carpintaria Alva, onde também fizemos dois briquetes. O responsável não estava, ficámos de voltar 5ªfeira. Ia uma senhora a passar, reparou que estávamos a fazer algo de novo, parou. Expliquei-lhe o que era, ficou entusiasmada com a ideia e quis levar o briquete para experimentar. Uau. E os briquetes não estavam a sair assim tão consistentes, pois a prensa não tem força suficiente. Na terceira carpintaria não nos receberam. Na quarta carpintaria, inexistente no relatório do Bô’16, o responsável ficou entusiasmado com a ideia, disse que ia encomendar “madeira azeitona”, por ser a mais resistente, para fazer uma prensa para ter lá na carpintaria dele. O único problema é que lá não produz serradura fina em quantidade necessária.
Mas todo o interesse no projecto é positivo e poderemos incluí-lo na cadeia de processo/venda, de alguma forma. Satisfeita com o trabalho produtivo, de sensibilização nas carpintarias para a possibilidade de produção de briquetes a partir de serradura resultante do trabalho de corte das madeiras.

De volta a casa, empadão com salsicha para o almoço. A Xinha não sabia fazer puré instantâneo, e logo ela que sabe tudo sobre cozinha. Foram os tugas a explicar-lhe. Isto só poderá significar uma coisa: puré instantâneo não é comida a sério.

Fizemos a primeira publicação desde que chegámos, no Facebook do Bô Energia. Fiquei com vontade de o fazer mais vezes.

A minha barriga começa a dar sinais de diarreia. Terá sido do kufungo (fubá com banana, embrulhado numa folha e assado) que comprei na rua para provar? Fica à venda naquelas bancas de rua, ao pó e mosquitos.

Noite de quizomba cá no quintal, com os convidados: Xinha, primas e Simão. Partir a rir com o Simão, tira as caricas das garrafas de Rosema, com o seu anel.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Dia 6 | Não há modo leve-leve

Depois do pseudo-raspanete da Rita para largar o modo leve-leve e Mucumbli, diz que temos de pegar pesado-pesado, ir à batalha para ter respostas e fazer acontecer.
Saímos de casa para ir à reunião com o Sr. Assunção, marcada para as 8h no Kitembú. Ele não apareceu.
Às 9h reunião marcada na Câmara Distrital de Lembá com o Presidente. A reunião não aconteceu.
Passámos nas Irmãs e na Carpintaria para confirmar a reunião das 15h. O Diogo não chegou a ir lá ter.
E foi assim que pegámos pesado-pesado. A questão de marcar reuniões em STP ser complexa, também o é pelo facto de os compromissos não serem levados a sério.

A reunião com o Sr Assunção foi remarcada para as 14h, e ele só chegou 15min atrasado. Justificou-se com uma reunião na Câmara. Falou-nos da sua ideia de projecto, para reflorestar São Tomé com árvores fruteiras (fruta-pão, sapeira, mangueira, e outra que não me lembro), que têm madeira de excelente qualidade para utilizar na construção, são abatidas para o fabrico de casas,  e por esse motivo estão em perigo de extinção. O projecto dele não tem nada de concreto, apenas a ideia. Basicamente, quer a nossa ajuda para delinear um projecto e levá-lo até potenciais patrocinadores.
A reunião com a Irmã Lúcia correu muito bem, ao contrário do que esperávamos. Ela foi muito aberta em relação a fazermos briquetes na carpintaria, apenas quer uma melhor definição da parte comercial. Vamos avançar com a produção, e em princípio será já na próxima 5ªfeira! J
Mais problemas neste dia: o cartão de telecomunicações da CST - Companhia São-tomense de Telecomunicações. No telemóvel que a Nivalda emprestou não funcionou, pois o telemóvel não é desbloqueado. No telemóvel da WACT não funcionou, pois não é desbloqueado. À terceira tentativa é de vez, fiquei com o telemóvel de uma amiga do Sebastião. Sem possibilidade de termos Internet no telemóvel, pois é dos antigos e bons (um NOKIA em melhor estado que o meu NOKIA falecido), fica complicado comunicar com Portugal a tempo e horas.
Nº de telemóvel CST do Bô Energia’17: 9853329
É um número profissional, não é cá para tretas.

O almoço deste dia foi peixe bonito grelhado, com fruta-pão a acompanhar e salada. Quando é peixe cá na casa WACT, é pouca quantidade para cada pessoa, mas é bom, dos pratos mais leves. E é melhor que os jantares à base de latas de atum e salsicha. O almoço é sempre a Xinha a fazer, à noite já é o grupo, então o objectivo é ser uma refeição mais fácil de fazer.
A questão de redução da quantidade de proteína diária, tendo em conta as indicações da Roda dos Alimentos, aqui na casa WACT, não é um problema, já se faz.

À tarde, depois da reunião com a Irmã Lúcia, fomos fazer o reconhecimento das outras carpintarias de Neves. Perdi-me a encontrar a do Sr. Eugénio. Tinha lá passado sozinha no dia anterior. Perguntámos onde ficava, e logo tivemos a ajuda de um rapaz simpático que se disponibilizou a ir connosco. E também nos levou à seguinte, e à outra, e à última. Um super guia turístico carpinteiro, que afinal era mesmo carpinteiro (trabalha na carpintaria das Irmãs).

O jantar foi salsichas. Tento não pensar na questão dos enlatados, dos ingredientes contidos, de todos os aditivos, e do lixo que deixamos em São Tomé. Já não tenho força mental para reclamar desta comida. Apenas como porque é uma necessidade básica.

O que há para fazer na casa WACT quando não trabalho no projecto e quando não tenho tarefas? Arrumar os ficheiros do computador, ora pois está claro. Álbuns de fotografias para organizar, com 2 anos de atraso… Que vergonhoso! Quando regressar a Portugal, quero dedicar mais tempo a organizar a minha vida, os meus projectos, as viagens, os meus objectivos, fotografias, músicas, amigos…
Menos trabalho para mim, por favor.
Leve-leve.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Dia 5 | Em êxtase e não

Sinto-me extasiada, embora o meu corpo não o demonstre. Hoje de manhã, consegui alcançar os dois objectivos que tinha para esta semana: ver a prensa de 4 briquetes a funcionar e fazer briquetes. Estou maravilhada.
Lá na Carpintaria das Irmãs, quando o Diogo, o responsável, nos deixou com o Wladimiro a fazer briquetes, agarrei-me logo à pasta de serradura e à prensa, e à manivela do macaco hidráulico. Nada como pôr as mãos na massa e era mesmo desta energia que eu estava a precisar sentir, para despertar o interesse pelo projecto.
O Sr. Carlos, um voluntário da Associação Casa Fiz do Mundo, que vai trabalhar na Carpintaria até Agosto como nós, fez-me lembrar o meu pai:
“Isto tem de ter aqui uma estrutura que permita dar à manivela para a plataforma subir e descer, sem ter de se retirar o macaco.”
“Os tubos têm de ter uma terminação mais larga, para ser mais fácil no final do processo trazê-los de volta para cima.”
Adoro estes senhores trabalhadores. Mas a atitude (in)voluntária dele para com os carpinteiros locais não me pareceu a mais assertiva:
“Força de branco é que é.”
“Temos que lhes dizer tudo, que estes gajos não pensam.”

O almoço da Xinha foi peixe grelhado com arroz e salada. Como sobremesa, fruta-pão assada. A fruta-pão faz lembrar uma castanha/batata/vegetal-fruta, bastante pesado.
A reunião marcada às 14h na Rádio, afinal era mesmo para falar na transmissão em directo, então foi apenas a Rita que falou de todos os projectos.
Era já a segunda vez que íamos à Casa das Irmãs falar com a Irmã Lúcia, a que comanda a Carpintaria, e novamente não a apanhámos. Acabámos por desistir de tentar hoje, eu e o Martim decidimos tirar o resto do dia de folga.
Na praia do Mucumbli, dois pretos vestidos, sentados, a olhar para as brancas da praia. Não percebi o que queriam. Dinheiro? Roubar malas? Nisto, uma britânica veio falar comigo, a dizer que me olhava pela mala caso eu quisesse ir ao banho. Acabei por me juntar ao grupo delas, turistas de férias em grupos organizados. Tinham as três nomes semelhantes, Anna, Amy, Hanne? Uma delas já viajou por 160 países, o objectivo é visitar todos. Parece-me um bom plano!
No meio do relax, veio o Sebastião a correr dizer-nos que as Irmãs estão à nossa espera para reunir. Na Casa das Irmãs, ou seja, do outro lado de Neves! Não me apeteceu correr, de todo. Foi o Martim em representação da pátria e marcou reunião para o dia seguinte. O Sebastião ficou chateado comigo por eu não o ter levado a sério e ter ficado para trás. O plano era relax time e eu apenas mantive o plano…
À noite, lavámos a loiça juntos, foi a tarefa diária da casa WACT. Todos os dias da semana temos uma tarefa, que pode ser preparar o pequeno-almoço, colocar a mesa do almoço, preparar o jantar, ou recolher os lixos da casa. Tudo muito bem organizadinho!! Vivência em grupo.
O jantar foi massa com vegetais - treta de jantar.

Hoje a principal lição foi: marcar reuniões e tarefas em STP é complexo. Tem de se insistir, voltar a insistir, relembrar a marcação e aparecer. Se dissermos “está combinado para amanhã”, poderão estar à nossa espera às 8h. As Irmãs assumiram que íamos às 8h, como fomos às 9h já não apanhámos a Irmã Lúcia. Disseram-nos para voltar às 15h, e não estava. Dissemos que voltaríamos às 17h ou no dia seguinte. Como às 17h não estávamos, já tínhamos falhado duas vezes e já os voluntários da outra Associação sabiam. E nem nós sabíamos ainda.
Não quero meter-me nestas confusões, quero leve-leve!!!

Aqui em São Tomé e Príncipe, leve-leve significa vai-se fazendo, ou vai-se estando ou está tudo bem.
“Como estás?”
“Leve-leve.”

domingo, 9 de julho de 2017

Dia 4 | Continuam as visitas

A música não parou a noite toda. Parece que a noite de Sábado é a que mais bomba. Ou então eu já não estava tão cansada da noite da viagem e finalmente estava desperta para os barulhos do exterior.
Saímos pelas 9h30 e fomos para a zona da cidade de Guadalupe, na carrinha do Simão. Visitámos a comunidade de Agostinho Neto, uma das maiores roças que havia em São Tomé antigamente. Junto ao edifício principal da antiga roça, um acampamento de escuteiros. Todas as crianças da comunidade vieram atrás de nós, dando-nos as mãos sem qualquer problema e seguiam no passeio connosco. Uma das miúdas que vinha connosco, repetia algumas vezes "Carro maluco!" para o carrinho de um dos miúdos. É um brinquedo improvisado, com o que têm.


Na Roça Rio D’ouro, mais uma estufa de secagem de cacau, da mesma cooperativa CECAB.
Tinha um pacote vindo de Portugal para entregar nesta comunidade, a pedido da Daniela. Só sabia que tinha de o entregar à “Nini”. Aproveitei logo para perguntar à primeira senhora que falou connosco, e por acaso, estava a falar com a mãe da Nini. Foi bastante mais fácil do que eu pensei.
Seguimos na carrinha para outra comunidade, Morro Peixe, acompanhados de um voluntário local da WACT, o Richie. À entrada, uma placa identificativa desta comunidade, pintada de azul e em forma de peixe, muito bem cuidada. A WACT actuou em Guadalupe até ao ano passado, e alguns dos trabalhos permanecem visíveis. Também o Willie se juntou a nós, eram já dois voluntários locais que faziam o passeio connosco.

O Sr. Hipólito falou-nos da sua Associação de conservação de tartarugas marinhas. O pessoal que trabalha com ele vigia as praias, regista o local de deposição de ovos, para depois ir lá recolhê-los e colocá-los num local seguro, longe dos caçadores de ovos. Aqui em STP comem-se os ovos de tartaruga e utilizam-se as suas carapaças para fazer artesanato. O trabalho de sensibilização aos pescadores começou há já alguns anos, mas há ainda um longo caminho a percorrer.
São mais de 100 ninhos que a Associação desloca, e cada um contém mais de 100 ovos. É muita tartaruga! Como fiz algumas perguntas no final da sua apresentação, o Sr. Hipólito perguntou-me se queria fazer voluntariado lá. A pensar, para o próximo ano… Quem sabe! Ia finalmente fazer um trabalho de bióloga! J Bora.
Ficámos de voltar, para fazer um passeio turístico de barco para observação de cetáceos.
Comunidade seguinte: Canavial. É mesmo para passar num caminho com canaviais. Mais uma vez, rodeados de crianças que nos davam as mãos e caminhavam connosco. Neste sítio em particular, mãos sujas. O puto que deu a mão a mim, tinha a mão molhada com sabe-se lá o quê. Houve quem tivesse desinfectado as mãos quando os miúdos não estavam mais a olhar. Faz sentido querer estar esterilizado em São Tomé?
Visitámos uma fábrica onde se produz cacharamba, a bebida alcoólica que resulta da fermentação do sumo da cana-de-açúcar. Começa por passar uma cana na máquina, depois juntam-se outras canas, e às tantas vê-se um emaranhado de fios a passar pela máquina para extrair o sumo. Fica alguns dias a fermentar em tanques, vai ao lume e… Minha nossa. Pior que cachaça!! Provámos todos pela mesma tampa (o grupo de voluntários, o pessoal da fábrica, todos, todos, à excepção das médicas). Acho que não tem problema microbiológico, a própria cacharamba mata qualquer bicho.
Deram-nos cana-de-açúcar para comer, trincando para sacar o sumo, mas também não consegui comê-la, com as minhas mãos naquele estado imundo.
Terminado o reconhecimento das comunidades, fomos até umas cascatas particulares, em Guadalupe, onde aproveitei para tomar banhoca e refrescar. E para lavar as mãos antes de comer.
A cascata de Guadalupe é uma cascata linda, que cai cheia de força. Não fui para o centro da queda de água, com receio de não conseguir sair de lá mais.
Provei banana frita e mata-bala frita. A mata-bala é um tubérculo, tipo batata, com pouco sabor. Também provei a sério o cacau, desta vez explicaram-me que não se comia a semente… Duh… É apenas para chuchar o suco da goma branca, em volta da semente, e é simplesmente delicioso e docinho! Este sim, é o verdadeiro cacau.

Já no caminho de regresso para Neves , fomos até à praia da Lagoa Azul. Esta é com areia branca, mas ainda assim com uma vista fenomenal. Mas há tanto lixo por toda a praia, como é possível não ser incomodativo para a população daqui?



Fiz pela primeira vez skype com os meus pais e vi o Vicky e a Aveia J O pai fez anos hoje e brindei virtualmente, no Mucumbli.

sábado, 8 de julho de 2017

Dia 3 | Treinar o desapego

Bem cedo, às 5h30, saímos de casa para ir ao aeroporto buscar a última colega que ia chegar. De hiace pela cidade de São Tomé, passámos por alguns pontos-chave de São Tomé, como as associações, instituições e empresas onde teremos de ir em breve por causa dos nossos projectos.
A visitar o mercado, perdida no meio das frutas e legumes e peixe salgado, marisco de molho, e mais frutas, totalmente absorvida pelo ambiente da feira de rua, não associei o porquê daquele homem vir tão perto de mim, tão colado às minhas costas. Passado 30 segundos parei de absorver as frutas e fez-se luz. Claro que fiquei sem o meu telemóvel que vinha na bolsinha de fora da mala. O meu incrível e duradouro telemóvel Nokia de 5€. Tanto tempo em Portugal a decidir se comprava um telemóvel inteligente, tanto tempo a adiar, tanto tempo a ponderar usar esse novo telemóvel em STP, para comunicar com Portugal, e assim num minuto a decisão de não comprar fica bem clarificada na minha cabeça: STP não é o local para estrear assessórios. Trazer o que é velho. Talvez isso se aplique em todas as viagens. Eu, que valorizo bastante os meus pertences, tentei não ficar chateada com o sucedido. Afinal de contas, sou eu o agente externo, eu é que não pertenço aqui e não tenho o direito de ficar chateada com o facto de ter sido roubada, principalmente quando já tinha sido alertada para situações como esta, no mercado.
Porcaria das frutas coloridas distractivas.
Bem, é só um telemóvel e posso comprar outro. Vou finalmente treinar o desapego do telemóvel. O que será realmente meu? A memória do mercado? Eu que tenho tão má memória, o que é realmente meu?
Na padaria Miguel Bernardo, o meu segundo contacto com dinheiro e até estou orgulhosa de mim, pois não conseguiram aldrabar-me e pedi o troco correcto. Faltava uma nota de 500.000. Raios parta a porra desta manhã! Mas ainda assim, não fiquei chateada, pois também nos tinham alertado para o facto de aldrabarem turistas nos trocos. E este Sábado foi o “dia de folga”, então estávamos sem as t-shirts, logo tínhamos caras de turistas.
Foi o Simão que trocou os nossos euros por dobras, para não sermos enganados. Que molhão de notas!
100€ = 2.500.000 dobras = 25 notas de 100 conto = I'm rich, babe!
De volta a Neves, resolvemos ir até ao Mucumbli. O Mucumbli é um resort para turistas, e tem uma descida directa para a praia. Esta é a única praia onde podemos ir, aqui em Neves, pois é pouco frequentada pela população local. Só vi a praia lá ao longe, e regressei sozinha, para ir finalmente à Internet mandar notícias para Portugal.

No caminho sozinha, pela estrada, dois tipos de mota ofereceram-me boleia. Estive tão tentada em aceitar a primeira, só depois me lembrei que está nas regras da WACT: não podemos andar de mota. O seguro não cobre. Se eu caísse, voltava para Portugal mais cedo. Se me levassem para um beco, possivelmente nem voltava para Portugal, de todo. Então continuei a caminhada. São cerca de 20 minutos a ver bananeiras.
No Kitembú Digital, a Internet é uma treta, e não consegui falar directamente com os meus pais, que era o meu objectivo. Passei a palavra às manas, na esperança de os lembrarem para desactivar o cartão do telemóvel roubado.
As miúdas que trabalham no Kitembú, a Ju e a Márcia, totalmente descontraídas. Ali, não deve haver stress no trabalho. Eu fiquei para além da hora em que disseram que fechavam e estava tudo na boa. Eu não tinha notas pequenas para pagar a hora de Internet, e estava tudo na boa, pagava na 2ªfeira, durante a reunião na Rádio. Se calhar, e só numa ideia rápida, aprenderia muito com estas pessoas sobre desapego.
Ontem, o Muller explicava-me a poligamia que aqui se vive. As mulheres sabem que o homem delas tem outras. Às vezes, dormem numas casas, às vezes, dormem noutras. É a puta do desapego? Pelos homens, pelo menos. Incrível capacidade das são-tomenses.
Bem, as duas miúdas disseram-me que não se importavam de experimentar os briquetes, apenas têm de saber o que é, e como se faz. Será que irá ser assim tão fácil sensibilizar para a utilização de briquetes em vez de carvão?

O almoço foi cachupa de peixe, que delícia! Ando a repetir todos os pratos, creio bem que vou ficar redonda… Tal como as são-tomenses.
À tarde, fomos novamente até à praia. No bar do resort, provei a cerveja local. Vem numa garrafa de meio litro, sem qualquer rótulo e sabe mesmo a cerveja artesanal, com o sabor bem apurado da cevada. O seu nome é Rosema e creio que iremos passar muitos e bons momentos desta minha estadia em São Tomé.
Um morcego passa por entre as bananeiras do jardim do Mucumbli. Pelos vistos, os morcegos gostam destas árvores. Os miúdos na Generosa tinham fisgas feitas com paus de madeira e elásticos, que utilizam para atirar pedras contra a estrutura da bananeira, a lula. Ao que parece, os morcegos permanecem dentro da lula a alimentar-se, até levarem com uma pedra na cabeça e caírem, para eles próprios servirem de alimento… Aos miúdos.

E cheguei à praia, finalmente. Água limpa, aqui os são-tomenses não cagam na praia, pelo menos tão frequentemente. Pedra preta e areia… preta. Areia preta nos meus pés, pela primeira vez! A praia com tanta vegetação!
Lindo, fantástico.

Fiquei ainda algum tempo a contemplar tal beleza, até que fui ao banho. O banho não é nada parecido aos banhos de Portugal, a água não é tão fria. Não me aventurei mar adentro, pois a minha querida mãe alertou-me para o facto de haver tubarões ao longo da costa. E ontem, pelo que ouvi, foram avistados dois. Eu não vi nenhum! Por acaso adorava ver uma barbatana a passar. Longe, de preferência.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Dia 2 | Tanta poluição

São quase 20h da noite e parece que já passou uma semana desde que cheguei a São Tomé. Na verdade vou apenas no dia 2. Aqui, as horas demoram a passar. Ou então ainda estou na fase de absorção de todo o ambiente estranho.
Cada quarto tem 2 beliches e temos redes mosquiteiras à volta da cama, não é uma cama de princesa, mas é quase. Fiquei na cama de cima. Custa a subir e a descer pois a escada não está fixa e pode cair a qualquer momento. Será que vou cair algum dia? Gosto do desafio.

Desafio: passar 6 semanas sem cair na escada do beliche, nem partir nenhum dos meus dois pés.

Ontem, para fazer a cama com os meus lençóis portugueses, sentei-me ao centro da cama e fazia a parte da frente e a parte de trás alternadamente. A cama não ficou bem feita, como é de imaginar. Hoje, já foi a Xinha a fazer a cama, os lençóis ficaram perfeitamente esticados e a rede mosquiteira perfeitamente encaixada nas tábuas da cama. Para mim, é um pouco estranho ter alguém a fazer-me a cama, mas aqui é o normal, e na verdade dá-me imenso jeito pois não chego lá acima.
Ao pequeno-almoço, nova fruta para provar: jaca. Também havia carambola, e pão com marmelada.
Da parte da manhã, demos uma pequena volta aqui pela comunidade de Neves. Passámos pelo Kitembú Digital, o local onde poderemos ir à Internet, usando os computadores lá da sala de informática, ou levando o nosso portátil e ligar à rede. Caminhámos até à Câmara Distrital de Lembá, que fica mesmo junto à praia. Nesta praia, as pessoas baixam a calça e cagam, by the way! É um processo muito simples.
Durante todo o caminho, “Olá”, “Olá”, “Olá”, “Olá”, “Olá”… Andamos identificados com as t-shirts verdes da WACT, e somos um grupo de 11 brancos, então todos querem falar connosco.
Há lixo por toda a rua, por todo o lado.
Eu e o Martim começámos a falar no projecto, no final da manhã. Para ir começando, devagarinho, sem danificar.
O almoço da Xinha foi peixe voador salgado, acompanhado de arroz e fubá (farinha de milho), o que dá uma pasta bem potente. Parecia papa cerelac com pouco leite. O molho de tomate do peixe estava delicioso, a Xinha sabe mesmo o que faz.
À tarde, fomos novamente acompanhados pelo Muller e pelo Alvencido, desta vez para fazer o reconhecimento de comunidades da zona Este. A primeira foi Ribeira Palma, muito pequena e degradada, nesta comunidade moram cerca de 40 famílias. A caminhada dura uma meia hora desde Neves, pelo que ficam um pouco isolados. Ao passar o Centro Comunitário, ouvia-se a novela a dar na televisão. Ao passar a ribeira, uma mulher de tronco nú tapa-se quando avista o grupo de brancos. Senti-me parte de um grupo de aliens que tinha aterrado ali há pouco e andava a passear. Ainda assim, o ambiente era super calmo e descontraído. Aqui, visitámos outra estufa de cacau biológico, onde vimos mesmo o cacau no secador. Tem de ser revirado de hora em hora, deve ser para secar melhor. No placard junto à estufa, feito claramente por alguma empresa, frases para sensibilizar os agricultores para a produção de cacau biológico, de melhor qualidade, pois assim dava mais dinheiro. E a referir que tinha de ir para a fermentação até 5h após a colheita, o que também o torna um placard formativo.
Novamente pela estrada principal, numa tentativa de não sermos atropelados pelas carrinhas amarelas e motas, caminhámos até Ribeira Funda. Esta é um pouco maior, com cerca de 60 famílias. As pessoas estão sentadas na rua, descontraídas, a falar umas com as outras. As crianças brincam livremente, nas ruas.
Foi aqui que fizemos os primeiros inquéritos relativos ao nosso projecto, por sugestão da nossa coordenadora Rita, para testarmos as perguntas com a população. Para testar a língua. Primeira conclusão: não resulta falar de “poluição”, pois não sabem do que estamos a falar, assim como também não resulta falarmos de “briquetes” sem explicar o que é. Ficámos de voltar a Ribeira Palma, 4ªfeira, às 8h, para ver a produção de carvão e a carpintaria local.
No regresso para casa, foi aberto um côco e dividido por todos. Muito bom! Até a fina casca castanha se come, o que eu não sabia, pois da única vez que tinha comido côco assim em crú, só tinha comido a parte branca (acho eu…).
Em Neves, fomos buscar serradura à carpintaria Alva e deixámo-la de molho para testar fazer briquetes, em breve. A prensa de madeira do projecto passado está cá em casa. Ir buscar serradura é muito fácil, pois está um monte de serradura na rua, em redor de qualquer carpintaria.
Ao final da tarde, um passeio até à praia de Bengá, junto à Câmara. Pedi a uma miúda para me DEIXAR ANDAR NA BICICLETA DELA. Eram dois bikers, ela e o irmão. Deve ser uma família revolucionária. Contra todas as expectativas, a bicicleta da miúda é mais desconfortável do que a minha Vilar Alpine. Não tentei as mudanças, mas até tinha travões funcionais!
Infracção das regras WACT nº 1: Tirei uma fotografia a uma pessoa da comunidade de trabalho. Era um motoqueiro, que exibia umas luzes verdes nos punhos da sua mota. Pedi para tirar uma fotografia a ele com a sua mota de luzes fluorescentes, ele posou para a foto. Ao ver o que eu fiz, veio logo de lá um grupo de miúdos com copos na mão, que quis também posar para uma fotografia. tive de tirar e mostrar-lhes, pois está claro.
À noite, tive a minha primeira experiência… Com dinheiro. Fui comprar pão.
1 pão = 2 contos
1 conto = 10.000 dobras (que é uma nota)
1€ = 24.500 dobras

Aqui no centro de Bengá, na zona dos bares, como diz a Rita, era só motas e carrinhas a passar. Uma fumaça desgraçada que se juntava à fumaça do carvão usado para cozinhar as bananas e outras coisas mais, que estão por toda a rua. A sério, tanto fumo em todo o lado! Acho que percebi a importância que os briquetes podem ter aqui neste local, percebi pelo cheiro acumulado do ar, de dois dias.